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Nova edição do Seminários de Zollikon

O Eterno Retorno (por Claudia Barcellos)

Ele é considerado, mesmo para quem o acha difícil, equivocado ou é seu desafeto político, por atitudes que em dado momento tomou, o mais importante filósofo contemporâneo e o mais eminente e inquietante pensador do século XX. Amando-se ou odiando-se as idéias do alemão Martin Heidegger (1889-1976), seu livro mais célebre, "Ser e Tempo", é apontado como a obra do século, embora sua primeira parte date de 1927.

Ele escreveu um total de 104 volumes e seu filho, Hermann, supervisiona pessoalmente os lançamentos de livros do pai pelo mundo, já que o filósofo tem obras traduzidas para inúmeros idiomas. Entretanto, somente cerca de 10% de seus livros foram convertidos para o português, segundo o professor Ernildo Stein, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), um dos introdutores de Heidegger no Brasil e responsável por algumas das mais importantes e melhores traduções do filósofo. Preenchendo essa terrível lacuna, a Editora Vozes lança, no próximo mês, os "Seminários de Zollikon", texto inédito em português e dedicado em especial àqueles que trabalham com as "ciências da alma", como psicanálise, psiquiatria ou psicologia, como observa Ernildo Stein.

Estava na hora de voltar a se traduzir a obra do pensador, pois não bastasse a originalidade de suas proposições, que tiraram o edifício da filosofia de onde estavam assentadas suas bases, a dimensão concreta da obra heideggereana é inconfundível na sua efetiva contribuição ao pensamento humano. E os "Seminários" não ficam atrás em importância. "Quando conheci Heidegger pessoalmente na Alemanha, em 1965, falamos entre outras coisas de meu interesse pela psicanálise. Ele, então, me aconselhou a freqüentar os seminários de Zollikon, nos arredores de Zurique, que haviam começado em 1959. O grupo era coordenado pelo médico Medard Boss, que na verdade colecionou todo o material a partir do qual se fez o livro", fala Stein.

Heidegger participava dos seminários duas vezes por ano, por cerca de duas semanas a cada vez. Entre 50 e 70 colegas e alunos de Boss reuniam-se na casa do médico para ouvir um disciplinado e já famoso pensador, que se preparava com muito cuidado para os seminários, segundo a narrativa do próprio Boss no prefácio do livro.

O homem que havia em certo momento sido proibido de lecionar por ter assumido a reitoria de uma universidade depois da ascensão de Hitler ao poder é descrito pelo médico como "a pessoa mais exaustivamente caluniada que já tinha encontrado, preso numa rede de mentiras de muitos de seus colegas". O médico foi aconselhado por muitos de seus interlocutores a esquecer as idéias de Heidegger, a quem consideravam como sendo "um típico nazista."

Boss também se colocou no lugar do filósofo com quem trocou extensa correspondência antes e durante a realização dos seminários: "Se me esforçasse em ser totalmente honesto comigo mesmo, eu teria de admitir não poder jurar que - se tivesse que viver sob as mesmas circunstâncias que Martin Heidegger naquele tempo - eu também não poderia ter vindo a tornar-me vítima de erros semelhantes."

A iniciativa do fecundo contato entre ambos partiu de Boss que, em 1947, escreveu uma carta ao filósofo pedindo-lhe ajuda intelectual. Recebeu a resposta pelo correio. Heidegger, amavelmente, se dispusera a ajudá-lo no que fosse possível. Viram-se pela primeira vez no refúgio da montanha de Heidegger, em 1949, surgindo entre ambos imediata e crescente simpatia.

Para Heidegger, a possibilidade de dialogar com um médico que entendia seu pensamento era animadora. "Ele via a possibilidade de que seus insights filosóficos não ficassem limitados às salas dos filósofos, mas pudessem beneficiar um número muito maior de pessoas e, principalmente, pessoas necessitadas", relata Boss no prefácio dos "Seminários de Zollikon".

Durante uma década, repetiram-se os encontros para debates e exposições de Heidegger ao grupo. Além disso, nas ocasiões em que se encontravam, Medard Boss e o filósofo conversavam longamente e de modo mais profundo do que era possível num encontro grupal. Os diálogos entre ambos também foram registrados pelo médico e estão no volume a ser lançado pela Vozes.

As 256 cartas que Heidegger escreveu ao médico completam o livro que, por seu tom oralizado, originário das transcrições, tem leitura de certa forma facilitada - a linguagem às vezes complexa empregada pelo filósofo costuma aparecer entre as queixas de seus leitores que, no entanto, rendem-se à poesia da escrita dele.

Heidegger, crítico da dimensão que a técnica tomou na esfera da existência humana, tem muito a dizer ao tempo atual, segundo Ernildo Stein. "Ele diria que vivemos os sintomas de uma cultura marcada pela ciência e pela técnica. O homem ocidental, para Heidegger, vê a natureza como um fundo de reserva inesgotável a ser explorado. Por isso seu pensamento serve de base para muitos estudos de ecologia profunda nos Estados Unidos e na Europa", afirma Stein.

Com a publicação dos "Seminários de Zollikon", o leitor brasileiro de Heidegger poderá entender melhor as heranças deixadas pelo pensador ao longo de 50 anos ininterruptos de produção intelectual.
 


A FILOSOFIA DE HEIDEGGER E SUAS IMPLICAÇÕES PARA A MEDICINA, PSIQUIATRIA E PSICOLOGIA (por Ida Cardinalli)

Recém-lançado no Brasil, o livro Seminários de Zollikon, do filósofo Martin Heidegger, sob organização do psiquiatra Medard Boss, explora os campos da medicina, psicologia e psicanálise, para descortinar o modo como apreendem o homem, demonstrando sua dificuldade de abarcar o existir humano, pelo fato de permanecerem ancorados nos pressupostos das ciências naturais.

O livro Seminários de Zollikon, do filósofo alemão Martin Heidegger, com organização do suíço Merdad Boss, foi publicado recentemente no Brasil, graças a iniciativa da Associação Brasileira de Daseinsanalyse (ABD), em pareceria com as Editoras Vozes e EDUC. Este projeto começou a se viabilizar a partir da tradução cuidadosa de Gabriella Arnhold e de Maria de Fátima de Almeida Prado, considerada "impecável" pelos especialistas de confiança de Hermann Heidegger, filho de Martin Heidegger, que juntamente com a Editora Klostermann cuidam, com extremo rigor, do legado deixado por Heidegger.

Considerado um dos maiores pensadores do século XX, Heidegger ocupa lugar estabelecido e incontestável no campo filosófico o que, por si só, já mostra o peso desta nova publicação. Mas, mais do que isto, a importância da iniciativa de se editar os Seminários de Zollikon no Brasil está no fato de que este trabalho facilitará o acesso do público não especializado ao pensamento heideggeriano, pois, este livro apresenta uma peculiaridade em relação aos outros do autor: os seminários não são endereçados unicamente aos filósofos ou especialistas, mas dirigidos aos médicos, psiquiatras e psicólogos. Isto não significa que o livro seja uma versão simplificada do pensamento heideggeriano ou, que apresente apenas discussões que transcendam o âmbito filosófico, indo para as temáticas da ciência em geral ou da ciência do homem. Nos seminários, Heidegger apresenta seu pensamento original e desenvolve sua análise, especialmente dos fundamentos subjacentes aos modelos científicos da Física, da Medicina, da Psicologia e da Psicanálise.

É importante salientar, também, que o livro é o resultado da iniciativa de Medard Boss, que, em 1947, escreve para o grande pensador, solicitando ajuda para uma melhor compreensão das suas idéias, em especial as desenvolvidas no livro Ser e tempo (1927).

A partir deste convite, Heidegger se dispõe a apresentar em Zollikon (Suíça) seminários regulares, durante dez anos (1959-1969), para um grupo de estudantes de medicina, de psiquiatras e de psicanalistas. Estes seminários foram registrados e, posteriormente, organizados e editados por M. Boss. Eles constituem a primeira parte deste livro.

A segunda parte apresenta os registros de Boss sobre suas conversas com Heidegger, que ocorreram, sobretudo, durante as estadas do filósofo em Zollikon, durante as viagens realizadas em conjunto por ambos e, também, durante as visitas de Boss a Heidegger na Alemanha. A leitura destes diálogos contribuem para o esclarecimento e o aprofundamento de questões importantes abordadas nos seminários.

A terceira parte consta das cartas de Heidegger endereçadas a Boss, no período de 1947 a 1971. Aí podemos notar aspectos que esclarecem o projeto de trabalho dos dois, bem como acompanhar o amadurecimento de sua relação pessoal. Nos prefácios da primeira e segunda edições alemã e no último capítulo, intitulado Palavras finais, além do prefácio da edição brasileira redigido por Marianne Boss, viúva de Boss, encontramos testemunho do longo convívio entre o médico e o filósofo.

Os seminários, os diálogos e as cartas revelam o modo como o pensador desenvolve suas idéias originais sobre diferentes temas, entre outros, o tempo, o espaço, o movimento, o corpo, a linguagem, o relacionamento do homem com os outros seres humanos e com as coisas presentes no mundo. Mostram, também, claramente a dificuldade inicial dos participantes dos seminários para se compreender efetivamente as idéias apresentadas pelo "mestre da Alemanha" . Tal dificuldade justifica-se pelo fato de sua filosofia requerer uma uma mudança radical de perspectiva para se pensar o homem, exigindo, assim, uma ultrapassagem do saber mensurável, explicativo e causalista presente no modo de pensar cotidiano e nas diversas teorias científicas.

Nestes seminários, Heidegger desenvolve uma crítica ao modelo de conhecimento científico utilizado pela Física, Química, Medicina e Psicologia. Do seu ponto de vista, as teorias psiquiátricas, psicológicas e psicanalíticas ainda permaneceram submetidas aos requisitos das ciências naturais. Elas não conseguem abarcar o modo peculiar do existir humano, pois transferem os fundamentos das ciências da natureza para as ciências humanas e pensam o homem como se ele fosse igual aos fenômenos da natureza, aos objetos ou às máquinas. O filósofo considera que a ciência, que visa ao estudo dos fenômenos humanos, necessita ser pensada e orientada segundo bases diferentes da ciência da natureza.

Para Heidegger, a palavra crítica significa, prioritariamente, distinguir e diferenciar; ele não a compreende em seu sentido mais habitual, de julgamento de algo, especialmente com um caráter depreciativo. A reflexão crítica de Heidegger sobre os fundamentos e o método científico das ciências naturais, não pretende destruir o método científico de investigação ou, mesmo, mostrá-lo como inadequado. A perspectiva do pensador é diferenciar ou distinguir o método pertinente à ciência que pretende estudar o homem, daquele que investiga os fenômenos não humanos. No entanto, quando ele discute o método da ciência, não se refere à metodologia e aos procedimentos empíricos de pesquisa, mas ao modo de acesso que já, anteriormente, pressupõe e circunscreve o próprio objeto de estudo.

Com o propósito de encontrar caminhos mais próprios que levem à compreensão da existência humana, Heidegger discute também alguns dos conceitos teóricos da psicanálise, como, por exemplo, a projeção, a introjeção ou a transferência e algumas questões da prática clínica da Psiquiatria e da Psicologia.

Aí podemos encontrar a oportunidade para a reflexão e para o esclarecimento de conceitos e temas diretamente ligados ao trabalho clínico, seja psiquiátrico ou psicoterápico. É muito comum que a interlocução do pensamento heideggeriano com a Psicologia e a Psiquiatria seja compreendida como mera aplicação de conceitos filosóficos na teorização e na intervenção do médico e do psicólogo. Boss nos ajuda esclarecer este equívoco. Heidegger entendia que a contribuição de seu pensamento para com o trabalho do médico ou do psicólogo se daria a partir do diálogo estabelecido entre os diferentes campos. No prefácio da primeira edição deste livro, Boss diz:

Um dia, o próprio Heidegger confessou que desde o início tivera grandes expectativas da ligação com um médico que parecia compreender seu pensamento. Ele via a possibilidade de que seus insights filosóficos não ficassem limitados às salas dos filósofos, mas pudessem beneficiar um número muito maior de pessoas e, principalmente, pessoas necessitadas de ajuda" (p.11).

Assim, somente o diálogo do filósofo com a Psicologia, Psiquiatria e a Psicanálise poderia fornecer subsídios e indicações importantes para a elaboração e desenvolvimento do conhecimento dos fenômenos humanos. E tais subsídios foram aqueles que permitiram o estabelecimento da abordagem daseinsanalítica, seja em seus esclarecimentos da psicoterapia, seja em seus estudos dos modos de existir patológicos e saudáveis do homem.

Conforme os ensinamentos heideggerianos apreendidos nos seminários, Boss reinaugura a abordagem denominada Daseinsanalyse , tanto para a psicoterapia, quanto para a psicopatologia. Em 1971, Boss fundou junto com colaboradores o Institute für Daseinsanalytische Psychotherapie und Psychosomatik em Zurique e deu início à formação de psicoterapeutas daseinsanalistas. Atualmente, ela está representada em diversos países como Áustria, Bélgica, Brasil, Canadá, França, Holanda e Inglaterra.

NOTAS:
1 A biografia de M. Heidegger escrita por Rüdiger Safranki foi traduzida para o português com o título Heidegger - Um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, do qual foi retirada esta expressão.

2 Binswanger foi o primeiro psiquiatra que percebeu contribuições importantes no pensamento heideggeriano para uma melhor compreensão dos fenômenos psicopatológicos. Estes estudos foram intitulados Psiquiatria daseinsanalítica; entretanto, eles foram duramente criticados por Heidegger, pois ele considerou que Binswanger não compreendeu corretamente suas idéias. A partir destas críticas, Binswanger deixou de denominar seu trabalho de Daseinsanalyse. Posteriormente, Boss denomina Daseinsanalyse, os seus estudos das patologias e da psicoterapia orientados pela compreensão heideggeriana do ser humano como Dasein (ser aí), conforme indicada por Heidegger. Deste modo, Boss é considerado o mais fiel seguidor da proposta de Heidegger para o campo da Psicologia e da Psicopatologia.

Ida Cardinalli é psicóloga, psicoterapeuta daseinsanalista, professora da Faculdade de Psicologia da PUC-SP do Núcleo de Atendimento Clínico na abordagem Fenomenológica-existencial. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP, com a dissertação intitulada "A compreensão da esquizofrenia na obra de Medard Boss".